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Análise: Pocket Mirror Goldenertraum


Texto e Edição: André Araújo | Revisão: Lúcia Pires | Adaptação: Amy


Pocket Mirror Goldenertraum é um jogo RPG de terror desenvolvido pelo estúdio português: Astral Shift, lançado a 18 de Maio de 2023 na Steam e na Itch.io. O jogo foca na nossa protagonista sem nome, que iremos chamar G, que não tem memórias nem contexto algum para a situação em que se encontra, este mistério é a força que nos empurra em frente ao longo desta narrativa propositadamente fragmentada e incerta.



Acordamos numa sala rodeada de rosas, sem memória do nosso nome, e no chão-

Um espelho de bolso.

Pocket mirror segue nos passos dos clássicos do gênero de RPG Maker Horror, salas para explorar, itens para colecionar e puzzles para resolver.



É mecanicamente simples, e a secção inicial do jogo apresenta três das cinco mecânicas principais do jogo. Nas várias salas que compõem esta seção, encontramos esferas de cristal de diferentes cores, e colocando estas esferas na ranhura apropriada da sala central, outra porta de abre. Embora este tipo específico de puzzle não se repita, futuros puzzles vão também usar itens como chaves.

Numa das salas, ao tentar obter uma das esferas, a mão da nossa protagonista fica presa e temos de carregar repetidamente na tecla Z (Ou Enter/Espaço, já que estas contam também como tecla de seleção e podem ajudar nestes momentos). Esta mecânica será relevante em vários pontos ao longo do jogo durante situações mais tensas, seja para abrir portas ou até correr.

Com todas as esferas e o espelho colocadas na sala central, um novo caminho é aberto na forma de uma escadaria. Atenção, não se esqueçam de apanhar o espelho do chão antes de continuarem.

Continuar sem o espelho resulta numa morte imediata e um Game Over, algo que permeará o jogo visto que não temos um sistema de vida. As mortes não são baratas ao ponto de castigar a exploração como é no caso de um jogo como Misao, estas regularmente resultam de decisões incorretas ou ao falhar um puzzle. 



Felizmente temos acesso a um sistema de Saves generoso, e é aconselhado gravar regularmente e em ficheiros diferentes (Isto será importante mais tarde).


Na sala seguinte encontramos uma boneca estranha, e um espelho que quando investigado, arrasta G para outra dimensão.

Acabamos assim o tutorial.



Duas estátuas bloqueiam o nosso caminho, ambas com um olho em falta, e duas portas por abrir, já sabemos o que fazer.



A porta à direita é a primeira a abrir, atrás dela temos uma sala escura com um único raio de luz a bater no chão, um pedaço de vidro que podemos empurrar e alguém dentro de um buraco escuro na parede, a pedir por luz.

Empurramos o vidro para refletir a luz, e acabamos o trabalho com o nosso próprio espelho de bolso. Como recompensa, um olho. Este é o primeiro puzzle que envolve empurrar objetos.


Voltando ao hall e partindo para a sala seguinte, entramos numa extensa galeria cheia de quadros macabros, com 2 de destaque no fundo da sala. Dois quadros paralelos, duas mulheres, uma confiante e a outra sem um dos olhos.

A mulher confiante mostra interesse no espelho de bolso, e contra qualquer lógica, oferecemos o espelho. Através de extorsão somos obrigados a arrancar o olho da mulher do quadro oposto, o que resulta imediatamente numa perseguição rápida até à porta. Perseguições são outra parte importante do jogo pois há várias, mas não são frustrantes nem extremamente difíceis.


Entrando na sala recuperamos o espelho e adquirimos outro olho. Oferecemos os olhos coletados a cada estátua e progredimos para um corredor. (O caminho correto é o da esquerda, o da direita resulta noutra morte instantânea.)



Chegando a uma sala de jantar conhecemos a nossa primeira antagonista (?), Egliette, uma boneca com controle absoluto do seu domínio, e um enorme apetite para tudo doce.

O resto do jogo segue esta fórmula, podendo ser separada quase por capítulos, cada um com uma antagonista diferente.



É difícil apresentar estas personagens sem estragar de certa forma a surpresa, mas vou tentar abordar cada “capítulo” com o mínimo de spoilers possíveis.


Fleta é uma rapariga mimada, quase saída de um conto clássico, que vive numa casa feita de doces juntamente de Egliette.

Neste capítulo, ao chegar à casa de Fleta, somos forçados a participar em alguns jogos (um deles opcional). Com exceção do último jogo, não é necessário vencer para progredir, mas o resultado destes jogos tem impacto no final obtido.



A seguir, visitamos a mansão de Harpae, uma figura mais madura e protetiva com G. 

A mansão sombria conta com andares completamente ofuscados pela escuridão, puzzles e múltiplas oportunidades de morte instantânea, é um dos locais mais assustadores do jogo, com uma atmosfera perfeita para o terror.

É um excelente contraste ao capítulo anterior e serve como uma continuação da rápida queda de G no abismo em que se encontra.



Também na mansão, conhecemos pela primeira vez Enjel, uma cópia quase idêntica da protagonista, aparentemente presa dentro do mundo dos espelhos.


Lisette é a mais antagonística das três, focada somente em matar G, reduzindo ao mínimo todas as interações normais entre as duas. 


O seu domínio conta com um labirinto de espelhos, um circo macabro, uma Igreja, e várias outras metáforas visuais conectadas apenas por uma sensação de dor, ódio e rancor.


Estas secções são comparativamente simples e mais lineares, focados principalmente na narrativa, com um ênfase maior em perseguições e puzzles de progressão básicos. (com uma exceção mencionada mais à frente).



Este é outro aspeto a ter em conta, Pocket Mirror Goldenertraum conta com um total de 5 finais, estes ditados pela quantidade de Regalias obtidas.

Regalias são itens que pertencem às várias personagens/oponentes da nossa protagonista e são obtidas no “final bom” de cada uma. A regalia de Egliette são os Messer und Gabel, e a Regalia da Fleta é o Rosen Glöckchen. Embora contem como Regalia, os Messer und Gabel são obtidos automaticamente ao progredir o jogo, e juntamente de outra regalia que não é adquirida, não afeta o fim do jogo.



Cada Regalia contém uma letra inscrita que eventualmente formam o nome da protagonista.

Uma destas é o Pocket Mirror, com a letra G inscrita na parte de trás. Sendo esta a primeira Regalia, a protagonista é referida como G nesta análise, embora outro nome seja erroneamente atribuído por outra personagem.


Finalmente para o capítulo final temos Enjel, e embora não possa dar muitos detalhes para evitar spoilers, é um capítulo onde são revelados tantos detalhes quanto surgem novas perguntas.

As Regalia na nossa posse são o elemento que decidirá o resultado do final deste capítulo, com a Regalia de Enjel tecnicamente não sendo adquirível e consequentemente nunca conseguirmos organicamente revelar o nome da protagonista, com a exceção de um dos finais com o nome “Dawn”.

É um capítulo curto, maioritariamente narrativo e com apenas um puzzle, mas não pensem que a vossa tecla Z pode descansar ainda.



Para ser sincero, a primeira hora de Pocket Mirror é lenta, não necessariamente em termos de acontecimentos, mas a narrativa só se começa realmente a desenrolar a partir do final deste primeiro capítulo.

Não tinha a certeza que tipo de jogo Pocket Mirror seria, e com os temas mais fantásticos inspirados em Alice in Wonderland e Hansel e Gretel que compõem o reino de Fleta, não esperava a variação de ambientes e o caos psicológico dos capítulos seguintes. Esperava era uma narrativa linear, mas ao chegar ao final do jogo percebi imediatamente que tinha apenas algumas peças de um puzzle mais profundo.

Mesmo com todos os fins desbloqueados e o jogo explorado de um canto ao outro, a história por detrás de Pocket Mirror continua, de certa forma, aberta para interpretação.

Estou extremamente entusiasmado para jogar a sequela/prequela Little Goody Two Shoes, que, embora não necessária para desfrutar Pocket Mirror, expande e ilumina a narrativa deste universo. (Pergunto-me se veremos alguns elementos desta história no próximo jogo da Astral Shift, Hell Maiden?)

Sem entrar em grande detalhe, a narrativa de Pocket Mirror cruza o género de metaficção com terror psicológico. Fãs de Silent Hill e Umineko encontrarão temas do seu interesse aqui.

G é obrigada a enfrentar elementos do seu passado desconhecido, afirmações carregadas de mentiras, e a suspeita constante de tudo e todos. Não existem companheiros ou “sidekicks”, até Enjel está limitada ao mundo dos espelhos e a sua presença está maioritariamente limitada ao final do jogo e às escassas cenas onde as duas raparigas interagem através de espelhos.

Esta ausência em comparação com as outras personagens é estranha e acho que existe mais espaço para aprofundar a caracterização de Enjel, o que resultaria até num maior impacto pelo final do jogo.


No início do capítulo de Harpae, navegamos um corredor de espelhos e colocados noutra secção de perseguição onde nos cruzamos com Lisette pela primeira vez. 

Esta secção é genial, o uso de efeitos que afetam a visão do jogador incluindo uma sobreposição invertida do ecrã é o suficiente para induzir em erro qualquer jogador que não esteja concentrado. O uso dessas ilusões como reflexões é também tematicamente apropriado para a situação e uma amostra do que nos espera quando chegarmos ao mundo de espelhos de Lisette.

Esta secção tem também a minha faixa favorita da banda sonora, Chimerical Presence (seguida de Evening Stroll).



Falando na banda sonora, é espetacular. Com peças de piano lindas, orquestras, temas macabros e um ambiente pesado, encaixa na perfeição aos temas e locais que visitamos ao longo do jogo, e é extensa, com 48 faixas no total.

O design de som foi também algo que me chamou a atenção, com cada passo de G audível, tábuas do chão, relógios, gotas e outros pequenos sons fazem um excelente trabalho a estabelecer o ambiente de cada sala.


Todas as experiências têm os seus altos e baixos, felizmente Pocket Mirror não contém muitos momentos de frustração, também graças à disponibilidade generosa de pontos de Save, que facilitam a correção de erros. 


A meio do capítulo de Egliette, temos um homicídio para resolver que envolve falar com múltiplos “fantasmas” e espreitar por portas à procura de informação.

Só após percorrer estes passos temos a oportunidade de apontar um culpado. É um pouco confuso, até agora ainda não tenho completamente a certeza da lógica por detrás da escolha correta, e acredito que seja em parte devido à alta quantidade de diálogo irrelevante que os fantasmas pomposos cospem. A necessidade de interagir com estes antes de ser permitido apontar um suspeito é também fonte de tédio numa segunda volta.



Outra seção que não gosto nada de repetir é o labirinto de espelhos no capítulo de Lisette. É grande e requer encontrar um item para progredir, este que aparece algures no mapa depois de… fazer algo, não sei o quê, ainda não percebi como passar esta secção mais rapidamente e embora não seja muito longa, não se compara bem ao resto do capítulo.


O jogo conta com um New Game + desbloqueado (e meio que forçado) após completar o jogo uma vez. Este entra em efeito automaticamente ao iniciar um novo jogo, onde ao acordarmos na sala inicial, temos acesso a outra sala onde podemos saltar entre os 6 capítulos do jogo (incluindo a secção de tutorial) e até aceder o capítulo final com a quantidade exata de Regalia que desejamos, o que facilita imenso a obtenção de finais diferentes, mas tira de certa forma o valor de repetir os capítulos anteriores sem ser para procurar colecionáveis ou desbloquear Bad e Dead Ends.

A complementar também a narrativa está a sala de Extras, com conteúdos desbloqueáveis com o uso de Pumpkin Charms, um colecionável obtido ao interagir com vários objetos e falando com as várias abóboras espalhadas pelo jogo.


Neste caso, o que brilha é mesmo ouro. Pocket Mirror Goldenertraum surpreendeu-me consistentemente e deixou-me desejoso de jogar a sequela.


Pocket Mirror tira enorme inspiração dos clássicos do gênero de RPG Horror, e merece ser considerado um, fazendo parte de uma linhagem de jogos Indie que demonstram o poder da paixão e talento destas pequenas equipas.

Podemos já não estar na onda Indie que se sentia pelo Youtube à uma década atrás, mas experiências como esta mantêm o espírito eternamente vivo.



História: 9

Gameplay: 7

Visuais: 8

Aúdio: 9

Nota Final: 8.3

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